Centro de Competência em Software Livre da UFPA disponibiliza página para acompanhar a evolução da pandemia da Covid-19 no Brasil

(de https://portal.ufpa.br/index.php/ultimas-noticias2/11475-centro-de-competencia-em-software-livre-da-ufpa-disponibiliza-pagina-para-acompanhar-a-evolucao-da-pandemia-da-covid-19-no-brasil)

  • Publicado: Terça, 31 de Março de 2020, 20h43
Observatório Covid19

Com o objetivo de oferecer informações sobre a evolução da pandemia do coronavírus no Brasil, o Centro de Competência em Software Livre da UFPA desenvolveu o Projjeto Observatório de Dados : COVID-19, que disponibiliza uma página com uma série de gráficos que facilita acompanhar o desenvolvimento da doença no país e nos estados brasileiros. Para conferir a página, acesse aqui.

A página oferece gráficos, tabelas e mapas com os dados informados pelas Secretarias Estaduais de Saúde em seus boletins que são divulgados ao decorrer do dia.  Os gráficos incluem os números de casos confirmados e de vítimas fatais resultantes da Covid-19 em todos os estados e no Brasil como um todo. Esses dados são compilados por uma equipe do Projeto Brasil.IO que atualiza a plataforma sempre que uma nova informação é disponibilizada.

“Procurando informações sobre a evolução da pandemia no Brasil, encontrei o Projeto COVID-19 do Brasil.IO que reúne um grupo de pessoas para, de maneira colaborativa, compilar e disponibilizar os dados divulgados pelas Secretarias Estaduais de Saúde em uma plataforma única com acesso facilitado para o desenvolvimento de software. Como os dados estavam apenas disponibilizados de maneira bruta, resolvi criar uma série de gráficos para facilitar a visualização da evolução da doença no país e nos estados”, explica o professor Filipe Saraiva, criador do Projeto Observatório de Dados : COVID-19, vinculado ao Centro de Competência em Software Livre da UFPA.

Observatório Covid19 1

A plataforma permite que todos possam ter uma visualização mais ampla de como os casos do coronavírus têm se expandido em todo o país, onde se concentra o maior número de infectados, como se comporta a taxa de letalidade, entre outros fatores importantes para o esclarecimento da população de forma geral e conhecimento das autoridades responsáveis pelas políticas de saúde em cada região.

“A visualização desses dados permite que vários insights e observações da dinâmica da pandemia sejam realizados, como: o aumento dos números de casos e óbitos totais por dia, sua dispersão geográfica no mapa do Brasil e dos estados, a taxa de letalidade, concentração e muito mais. Assim, a população pode entender de maneira mais clara o que está acontecendo ao longo dos dias, e os tomadores de decisão podem se guiar para realizar ações específicas e mensurar o impacto das políticas adotadas nesse momento tão complexo”, lembra Filipe Saraiva.

Centro de Competência em Software Livre da UFPA  – É um laboratório virtual ligado à Faculdade de Computação e ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação, do Instituto de Ciências Exatas e Naturais (ICEN), que objetiva disseminar e apoiar o desenvolvimento de softwares livres na Universidade e na sociedade em geral.

Texto: Maissa Trajano – Assessoria de Comunicação da UFPA
Arte: Reprodução Observatório de Dados: COVID-19

Tecnopolítica #32: Educação vigiada

No episódio #32, Sérgio Amadeu conversa com Leo Cruz e Filipe Saraiva sobre a problemática do avanço do uso de plataformas privadas de grandes empresas como Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft na educação brasileira e sobre como a monetização dessas corporações está baseada no chamado Capitalismo de Vigilância. Termo utilizado pela pesquisadora Shoshana Zuboff (Harvard Business School) para designar uma forma de reprodução do Capital baseada na extração de dados pessoais via tecnologias digitais para prever o comportamento das pessoas e com isso ofertar produtos e serviços. Conheça o projeto Educação Vigiada: https://educacaovigiada.org.br/

Lavits_Covid19_ #1: No tempo da catástrofe, capitalismo de vigilância avança sobre a educação no Brasil

(de http://lavits.org/no-tempo-da-catastrofe-capitalismo-de-vigilancia-avanca-sobre-a-educacao-no-brasil)

Fabiana Oliveira

A despeito das políticas de Estado implementadas no mundo todo para conter a pandemia do Covid-19 e dos esforços coletivos para achatar a curva de contaminação no Brasil, na terça-feira (24) o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez um pronunciamento oficial que desincentivou o isolamento social e banalizou as projeções da mortalidade por coronavírus no país. Entretanto, de acordo com a própria Agência Brasileira de Inteligência (Abin), podem ser 5.571 mortes até o dia 6 de abril.

Nas redes digitais o discurso foi apontado como ausência de sanidade ou de inteligência do mandatário. Embora seja difícil definir precisamente quais motivações alimentam o negacionismo do atual governo sobre a gravidade da pandemia, que já matou mais de 8 mil pessoas na Itália, por exemplo, é possível estabelecer conexões entre a negação como aposta política e os interesses do mercado financeiro e das grandes corporações, inclusive as de tecnologia.

As grandes corporações, especificamente, encontram no terreno arrasado – material e simbolicamente – um solo fértil para velhos e novos modos de forjar “alternativas infernais”, ou seja, para “a morte da escolha política, do direito de pensar coletivamente o futuro”, como define a filósofa da ciência Isabelle Stengers. É o caso das plataformas tecnológicas que oferecem Educação à Distância (EaD) para escolas e universidades.

Um mapeamento inédito, realizado por dois núcleos de pesquisa da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pela Iniciativa Educação Aberta (Cátedra UNESCO de EaD sediada na Universidade de Brasília e Instituto Educadigital) revela que 65% das universidades públicas e secretarias estaduais de educação estão expostas ao chamado “capitalismo de vigilância”.

O início da exposição não data de 2020, no contexto da pandemia, mas se acirra nesse período em que as atividades presenciais estão suspensas pelas instituições de ensino. O serviço “eficiente, acessível e gratuito”, das plataformas corporativas, paira como oferta mais que adequada em um momento em que há cortes de gastos generalizados nas universidades públicas e a perspectiva permanente de maximização dos lucros nas entidades privadas, para citar dois contextos em que tais serviços estão sendo incorporados.

O projeto Educação Vigiada, que realizou o mapeamento supracitado, foi lançado por transmissão ao vivo nesta quinta-feira (26) e quer chamar a atenção para as consequências da adoção acrítica e massiva de tais plataformas de tecnologia, quanto às problemáticas nas relações entre esferas públicas e privadas, direitos dos usuários, privacidade, proteção de dados pessoais, entre outras.

Para Tel Amiel, da UnB e coordenador da Cátedra UNESCO em EaD, um dos pesquisadores envolvido no projeto, embora ferramentas como as que são ofertadas pela Google For Education não sejam efetivamente pagas pelas universidades, “há um valor oculto extraído da coleta de nossos dados e metadados”.

Educação Vigiada é parte integrante da pesquisa “Capitalismo de Vigilância e a Educação Pública do Brasil”, que tem a intenção de alertar a sociedade para a falta de transparência nos modelos de aceite de serviços gratuitos oferecidos por essas empresas firmados com instituições e redes de ensino.

Capitalismo de vigilância e naturalização das alternativas infernais

No artigo Infraestruturas, Economia e Política Informacional: o Caso do Google Suite For Education, Henrique Zoqui Martins Parra (membro da Lavits), Leonardo Cruz (membro da Lavits), Tel Amiel e Jorge Machado indicam possíveis efeitos sociopolíticos da adoção de infraestruturas e serviços de tecnologias de comunicação corporativos no ambiente universitário no Brasil.

“Os modernos telefones celulares possuem diversos sensores que mapeiam nosso ambiente e geram informações que são prontamente utilizadas pelo mercado para estabelecer padrões sobre nossos gostos, comportamentos, deslocamentos e hábitos de compra – e, se possível, predizê-los e controlá-los. Portanto, mais do que monitorar, essas informações dão amplos subsídios para que nosso comportamento – econômico, político e social – seja influenciado com diferentes fins”, alertam.

“Quanto vale o gratuito?” é um importante questionamento apresentado no texto, porque a gratuidade é um argumento bastante utilizado para a adoção de serviços/plataformas de grandes corporações como o Google e a Microsoft. As possíveis respostas incluem, de uma perspectiva crítica, refletir sobre o fato de que “(…) a principal fonte de renda da empresa é o marketing customizado para o usuário. Graças à enorme capacidade de coletar, agregar e analisar informações sobre padrões de busca, de navegação, das formas de visualização, deslocamentos, enfim, tudo que fazemos quando estamos conectados através da plataforma Google ou com os sistemas Android em smartphones, a capacidade de coleta de dados torna-se gigantesca”, como apontam os pesquisadores.

“Esse conjunto de acordos reflete a vulnerabilidade especial dos países do Sul frente à expansão do capitalismo de vigilância”, afirma outro membro da Lavits, o antropólogo Rafael Evangelista, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp. Segundo ele, os gestores públicos dos países mais pobres e em crise são pressionados a reduzirem os investimentos em educação num contexto de reformas neoliberalizantes.

Assim, abdicariam de fortalecer infraestruturas informacionais próprias e fazer investimentos em tecnologias em favor de soluções prontas e aparentemente gratuitas, o que só reforça a assimetria de poder entre o Sul e o Norte Global. Evangelista é autor de uma resenha do livro The Age of Surveillance Capitalism (A Era do Capitalismo de Vigilância), de Shoshana Zuboff, que explora o conceito de capitalismo de vigilância, e que foi publicada na revista Surveillance & Society.

Série Lavits_Covid19

A Lavits_Covid19: Pandemia, tecnologia e capitalismo de vigilância é um exercício de reflexão sobre as respostas tecnológicas, sociais e políticas que vêm sendo dadas à pandemia do novo coronavírus, com especial atenção aos processos de controle e vigilância. Tais respostas levantam problemas que se furtam a saídas simples. A série nos convoca a reinventar ideias, corpos e conexões em tempos de pandemia.

Mapeamento inédito mostra exposição da educação brasileira ao “capitalismo de vigilância”d

(de https://aberta.org.br/mapeamento/)

Educação Vigiada mostra que 65% das universidades públicas e secretarias estaduais de educação estão expostas ao  “capitalismo de vigilância”. O projeto vem chamar a atenção da sociedade para o problema da falta de transparência e regulação nas relações público-privadas em serviços e plataformas tecnológicas, comprometendo direitos dos usuários, como privacidade e a proteção de dados pessoais. Lançamento com transmissão ao vivo acontece dia 26/março.

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Bastou começar a suspensão das aulas pelas instituições de ensino, no esforço coletivo de contribuir com a disseminação do COVID-19, para surgir uma lista imensa de empresas e plataformas de tecnologia ofertando ferramentas diversas para EaD (educação a distância) como forma de evitar prejuízos ao semestre letivo. Boa parte delas, inclusive, disponibilizando acesso e serviços ‘gratuitos’ para incentivar o uso.

Só que essa disputa pela atenção de educadores e gestores de instituições de educação no Brasil não é de agora. Mapeamento realizado por dois núcleos de pesquisa da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pela Iniciativa Educação Aberta (Cátedra UNESCO de EaD sediada na Universidade de Brasília (UnB) e Instituto Educadigital) revela que 65% das universidades públicas e secretarias estaduais estão expostas ao chamado “capitalismo de vigilância”, termo utilizado para designar modelos de negócios baseados na ampla extração de dados pessoais por algoritmos e técnicas de inteligência artificial para obter previsões sobre o comportamento dos usuários e com isso ofertar produtos e serviços.

Intitulado Educação Vigiada, o mapeamento tem por objetivo chamar a atenção da sociedade para o problema da falta de regulação de parcerias estabelecidas por órgãos públicos de educação com organizações comerciais, o que compromete o direito à privacidade e à proteção de dados pessoais dos cidadãos e também de crianças e adolescentes. “Essas parcerias não envolvem dispêndio de recursos financeiros por parte da administração pública. No entanto há um valor oculto extraído da coleta de nossos dados e metadados”, explica o professor Tel Amiel, da UnB e coordenador da Cátedra UNESCO em EaD.

Por mais que atos de solidariedade em momentos de crise como o atual sejam bem-vindos, como fica a responsabilidade do serviço público em aceitar simplesmente ofertas “grátis” sem uma análise do contexto e das contrapartidas envolvidas? A questão da vigilância começou a ganhar destaque nos noticiários a partir das denúncias do ex-oficial da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, Edward Snowden, de que o governo americano mantinha programas de espionagem em massa de seus cidadãos e de autoridades de outros países.

Filmes recentes como “Privacidade Hackeada” e sobre a própria história de Snowden têm escancarado a maneira como dados pessoais coletados de forma persistente e extensa são hoje o motor que gera o lucro das mais famosas corporações de tecnologia do planeta, como Google e Facebook. “Como não encontramos informações sobre como essas parcerias se dão no âmbito da administração pública, nem por parte do governo, nem por parte das empresas, criamos um programa para acessar a base de dados do endereço do servidor de e-mail das instituições de ensino e saber se os servidores estão alocados em máquinas externas de empresas ou em máquinas sob controle das próprias instituições de ensino”, explicou o professor Leonardo Cruz, do Laboratório Amazônico de Estudos Sociotécnicos da UFPA e pesquisador da Rede Latino-Americana de estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Rede LAVITS).

Educação Vigiada é parte integrante da pesquisa “Capitalismo de Vigilância e a Educação Pública do Brasil” com a intenção de alertar a sociedade para a falta de transparência nos modelos de aceite de serviços gratuitos oferecidos por essas empresas firmados com instituições e redes de ensino. Para o professor Filipe Saraiva, do Centro de Competência em Software Livre da UFPA, em um cenário de desincentivo ao financiamento da educação pública e redução dos orçamentos universitários, as instituições simplesmente aderem a produtos ‘gratuitos’ de empresas e os submetem à comunidade educacional a partir de um discurso de “inovação” e “qualidade”. “Mas é preciso ter cautela”, ressalta. “No afã de resolver problemas imediatos e urgentes, gestores e professores muitas vezes não enxergam que boa parte da inabilidade das instituições para responder às demandas de sistemas e serviços se dá pelo sucateamento de estruturas e equipes de suporte, em favor de soluções externas ‘gratuitas’.

A diretora-executiva do Instituto Educadigital, Priscila Gonsales, lembra que, no caso da educação básica, o problema é ainda maior, pois envolve o uso por crianças e adolescentes. “Em agosto entra em vigor a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que traz um artigo específico sobre proteção de dados para esse público, logo escolas precisam repensar seu papel pedagógico em relação às escolhas que fazem, além de formar professores e alunos sobre a importância desse tema”, pontua.

Segundo os pesquisadores envolvidos no mapeamento, uma vez estabelecidas as parcerias público-privadas e que sejam feitas as migrações de serviços, como por exemplo, o e-mail institucional, é muito difícil que instituições e redes consigam reverter esse cenário de dependência.

Educação Vigiada recebeu apoio da organização chilena Derechos Digitales, por meio do Fundo de Resposta Rápida, e apresenta os dados atualizados da pesquisa, além de informações complementares e recomendações para cada função na comunidade escolar (gestor, professor, pais e estudantes). Saiba mais em: www.educacaovigiada.org.br